No
Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor, instituído pela Unesco em 1995, dois
livrinhos -- «As cidades Invisíveis» de Italo Calvino e «A Euforia Perpétua» de Pascal Bruckner -- e a pincelada de um estrangeirado, Verney
«Se
quiserem acreditar, óptimo. Contarei como é feita Octávia, cidade-teia-de-aranha.
Existe um precipício no meio de duas montanhas escarpadas. A cidade fica no
vazio, ligada aos dois cumes por fios, correntes e passarelas. Caminha-se por
aqueles trilhos de madeira, cuidando nunca enfiar os pés nos intervalos, ou agarrados
aos fios de cânhamo. Por baixo são centenas de metros sem nada, de nada, vazio.
Essa é a base da cidade: uma rede que serve simultaneamente de passagem e
sustentáculo. Tudo o resto, em vez de se elevar, está pendurado para baixo:
escadas de corda, redes, varais, casas em forma de saco, terraços, odres de
água, cestos, monta-cargas, chuveiros, bicos de gás, trapézios, teleféricos,… Suspensa
sobre o abismo, a vida dos habitantes de Octávia é menos incerta que a de
outras cidades. Sabem que a rede não resistirá mais do que isso.»
in As cidades Invisíveis
«As ilusões perdidas. Nada mais triste que o futuro quando se assemelha ao que havíamos imaginado. Um tédio. Daí a exaltação de Victor Segalen "Tinha de me pronunciar sobre o pêndulo e o sino, confesso agora ter sobretudo escolhido o som".
A
felicidade de uns é o kitsch dos
outros. A vulgaridade não é a falta de maneiras do rústico pouco polido. A
intromissão das massas nas maneiras e nos costumes, dito de outra forma, é a
elevação do inferior ao mesmo nível do superior. É uma consequência da
igualdade, sintoma de um tempo que
pretendeu minar as hierarquias. Os valores são rebaixados, as distinções
apagadas. A vulgaridade, para retomar as palavras de Zola a propósito do IIº
Império, é a orgia, a mistura dos géneros, a investida em direcção aos prazeres
fáceis, a desordem dos apetites e das ambições, o triunfo do arrivista [e do
seu corolário, o pária], do iletrado milionário que trata de adquirir alguns
rudimentos de boas maneiras e cultura para lançar um véu pudico sobre as suas
origens. A vulgaridade é uma perversão, uma doença de ligitimação. Em lugar de
se submeter a uma aprendizagem paciente, o vulgar instala-se no lugar daquele
que imita.»
in A euforia perpétua
«Tantos anos de disputas, tantas subtilezas,
não deitam uma oitava de verdadeiro espírito filosófico, quero dizer, de um
juízo prudente e crítico, capaz de fazer observações úteis e discorrer com
fundamento sobre as causas de qualquer efeito natural. A três ou quatro
palavras se reduz toda a sua filosofia natural. Pasma um homem de ver a
facilidade com que explicam qualquer fenómeno que se oferece»
Luis
António Verney *
* há quarenta anos todo o aluno
do ensino secundário teria de conhecer a sua "existência" e obrigatoriamente
teriam de ser lidos [pelo menos ler] alguns excertos; hoje --, à semelhança de
uma miríade de outros vultos da cultura portuguesa --, 95% [upa, upa] dos portugueses ignoram a sua
existência. A cultura: essa «coisa inutilissima» a que, no tempo de
Verney, chamavam de «arengas e ociosidades
de estrangeiros».
