23 de abril de 2013

«Coisas» enfadonhas


No Dia Mundial do Livro e do Direito do Autor, instituído pela Unesco em 1995, dois livrinhos -- «As cidades Invisíveis»  de Italo Calvino e «A Euforia Perpétua» de Pascal Bruckner -- e a pincelada de um estrangeirado, Verney

 
«Se quiserem acreditar, óptimo. Contarei como é feita Octávia, cidade-teia-de-aranha. Existe um precipício no meio de duas montanhas escarpadas. A cidade fica no vazio, ligada aos dois cumes por fios, correntes e passarelas. Caminha-se por aqueles trilhos de madeira, cuidando nunca enfiar os pés nos intervalos, ou agarrados aos fios de cânhamo. Por baixo são centenas de metros sem nada, de nada, vazio. Essa é a base da cidade: uma rede que serve simultaneamente de passagem e sustentáculo. Tudo o resto, em vez de se elevar, está pendurado para baixo: escadas de corda, redes, varais, casas em forma de saco, terraços, odres de água, cestos, monta-cargas, chuveiros, bicos de gás, trapézios, teleféricos,… Suspensa sobre o abismo, a vida dos habitantes de Octávia é menos incerta que a de outras cidades. Sabem que a rede não resistirá mais do que isso.»
in As cidades Invisíveis



«As ilusões perdidas. Nada mais triste que o futuro quando se assemelha ao que havíamos imaginado. Um tédio. Daí a exaltação de Victor Segalen "Tinha de me pronunciar sobre o pêndulo e o sino, confesso agora ter sobretudo escolhido o som".
A felicidade de uns é o kitsch dos outros. A vulgaridade não é a falta de maneiras do rústico pouco polido. A intromissão das massas nas maneiras e nos costumes, dito de outra forma, é a elevação do inferior ao mesmo nível do superior. É uma consequência da igualdade,  sintoma de um tempo que pretendeu minar as hierarquias. Os valores são rebaixados, as distinções apagadas. A vulgaridade, para retomar as palavras de Zola a propósito do IIº Império, é a orgia, a mistura dos géneros, a investida em direcção aos prazeres fáceis, a desordem dos apetites e das ambições, o triunfo do arrivista [e do seu corolário, o pária], do iletrado milionário que trata de adquirir alguns rudimentos de boas maneiras e cultura para lançar um véu pudico sobre as suas origens. A vulgaridade é uma perversão, uma doença de ligitimação. Em lugar de se submeter a uma aprendizagem paciente, o vulgar instala-se no lugar daquele que imita.»
in A euforia perpétua



«Tantos anos de disputas, tantas subtilezas, não deitam uma oitava de verdadeiro espírito filosófico, quero dizer, de um juízo prudente e crítico, capaz de fazer observações úteis e discorrer com fundamento sobre as causas de qualquer efeito natural. A três ou quatro palavras se reduz toda a sua filosofia natural. Pasma um homem de ver a facilidade com que explicam qualquer fenómeno que se oferece»
 Luis António Verney *

* há quarenta anos todo o aluno do ensino secundário teria de conhecer a sua "existência" e obrigatoriamente teriam de ser lidos [pelo menos ler] alguns excertos; hoje --, à semelhança de uma miríade de outros vultos da cultura portuguesa --, 95% [upa, upa] dos portugueses ignoram a sua existência.  A cultura: essa «coisa inutilissima» a que, no tempo de Verney, chamavam de «arengas e ociosidades de estrangeiros».