10 de março de 2013

Navio ao fundo


«Apesar de Vítor Gaspar repetidamente errar nas previsões e falhar os objectivos, durante muito tempo achei-o um sujeito rigoroso. Provavelmente por causa do modo de falar e do conteúdo do que dizia. Num país empenhado em torturar a língua e numa classe em que a língua é sequestrada todos os dias a benefício de conversa fiada, confesso desde já a minha parcialidade por qualquer político que se exprima num português seco, com as palavras contadas e bem medidas. O desemprego ultrapassou as piores estimativas? Pois ultrapassou. A receita fiscal ficou bastante aquém do esperado? Pois ficou. A recessão duplicou as antevisões? Pois duplicou, embora a serenidade técnica do dr. Gaspar ao constatar estas pequenas desgraças transmitisse a ideia de que, sem ele, as desgraças seriam ainda maiores. Dito de maneira diferente, o dr. Gaspar parecia-me diferente dos seus pares. Parecia.



O idílio terminou no momento em que o ministro das Finanças afirmou o seguinte: "Portugal é um povo de marinheiros capaz de superar tormentas." Repito, para que uma eventual gralha não desvirtue semelhante parvoíce: "Portugal é um povo de marinheiros capaz de superar tormentas." O que significa isto? Em teoria, nada. Na prática, significa que o dr. Gaspar se rendeu, ou ameaça render-se, ao charlatanismo lírico que caracteriza a retórica política caseira. Talvez estivesse num dia mau. Porém, não merece desculpas.
Não haja dúvidas. Sempre que um governante comete uma alusão à gesta dos descobrimentos, à epopeia marítima, às gentes que deram novos mundos ao mundo e aos sonhadores que viram para além do Bojador, é certo que o sujeito ficou sem argumentos ou nunca os teve logo de início. O recurso ao patriotismo, para cúmulo se "fundamentado" em proezas remotas, é um sinal manifesto de abdicação. Invocar Vasco da Gama para compensar as massas do saque fiscal é tão pertinente quanto isentar os gregos da loucura despesista mediante referências a Aristóteles.»
Alberto Gonçalves