«Apesar de
Vítor Gaspar repetidamente errar nas previsões e falhar os objectivos, durante
muito tempo achei-o um sujeito rigoroso. Provavelmente por causa do modo de
falar e do conteúdo do que dizia. Num país empenhado em torturar a língua e
numa classe em que a língua é sequestrada todos os dias a benefício de conversa
fiada, confesso desde já a minha parcialidade por qualquer político que se
exprima num português seco, com as palavras contadas e bem medidas. O
desemprego ultrapassou as piores estimativas? Pois ultrapassou. A receita
fiscal ficou bastante aquém do esperado? Pois ficou. A recessão duplicou as
antevisões? Pois duplicou, embora a serenidade técnica do dr. Gaspar ao
constatar estas pequenas desgraças transmitisse a ideia de que, sem ele, as
desgraças seriam ainda maiores. Dito de maneira diferente, o dr. Gaspar
parecia-me diferente dos seus pares. Parecia.
O idílio
terminou no momento em que o ministro das Finanças afirmou o seguinte:
"Portugal é um povo de marinheiros capaz de superar tormentas."
Repito, para que uma eventual gralha não desvirtue semelhante parvoíce:
"Portugal é um povo de marinheiros capaz de superar tormentas." O que
significa isto? Em teoria, nada. Na prática, significa que o dr. Gaspar se
rendeu, ou ameaça render-se, ao charlatanismo lírico que caracteriza a retórica
política caseira. Talvez estivesse num dia mau. Porém, não merece desculpas.
Não haja
dúvidas. Sempre que um governante comete uma alusão à gesta dos descobrimentos,
à epopeia marítima, às gentes que deram novos mundos ao mundo e aos sonhadores
que viram para além do Bojador, é certo que o sujeito ficou sem argumentos ou
nunca os teve logo de início. O recurso ao patriotismo, para cúmulo se
"fundamentado" em proezas remotas, é um sinal manifesto de abdicação.
Invocar Vasco da Gama para compensar as massas do saque fiscal é tão pertinente
quanto isentar os gregos da loucura despesista mediante referências a
Aristóteles.»
Alberto Gonçalves