2 de março de 2013

[Em 110 anos] passámos do «grelo» à «troika»


As atribulações e as angústias no redil há cento e dez anos -- Março de 1903 --, se comparadas, têm mais semelhanças do que diferenças com as de hoje.
Hoje o “epicentro” é em Lisboa; em Março de 1903 o “frémito” foi em Coimbra. Hoje é a «classe média» que se remexe; em Março de 1903, no início, remexeram-se as vendedoras ambulantes. Hoje esmagados por uma carga fiscal, colossal; em Março de 1903 porque lhes caíra em cima o «imposto do selo». Hoje, para comer, carecemos que outros nos paguem a refeição; em Março de 1903 porque a monarquia arrastava o país para a mais negra indigência [e ainda a recuperar do “desapossamento” e do consequente trauma a um Mapa pintado de rosa que só nas cabeças de umas luminárias lusas poderia ter faiscado como se nada mais existisse além do aprisco]. Hoje ouvem-se «foras» ao governo, «abaixo» a troika» e «vivas» ao 25A; em Março de 1903 fizeram ouvir  «morras» ao governo e «vivas» à República, à revolução social e ao socialismo.
O que em Março de 1903 irrompera espontaneamente, consta, no dia seguinte, já estava em vias de ser capturado por pessoas que tinham pouco ou nada a ver com o protesto original e que depressa começaram a actuar, tentando desviar o movimento para os seus próprios fins. Em Março de 2013, pessoas ideologicamente enquadradas, reeditam o brado espontaneo que irrompeu em Setembro de 2012.
Hoje o “hino” dos «indignados» é Grândola, Vila Morena
«Grândola, vila morena / Terra da fraternidade / O povo é quem mais ordena / Dentro de ti, ó cidade / (…) / Em cada esquina um amigo / Em cada rosto igualdade»;
em Março de 1903, o “hino” foi uma cançoneta sobre a música A Apanhar o Trevo
«Vão pagar o selo / o selo à praça / vão pagar o selo / que o selo não é de graça: / Vamos todos raparigas / vamos à revolução / vamos todos fazer greve / ao Pátio da Inquisição»

Nem mais nem menos tesinhos do que em 1903, mas internacionalizámo-nos. Mal não está; está péssimo. Cento e dez anos para deixar de andar de burro e passar a ser montado por burros convenhamos que é pouco, além de um tremendo despercídio de tempo.
Hoje, as reses, desfilarão segundo as regras das boas sebentas da agit-prop e vociferarão liturgicamente sintonizados. E depois? depois nem o pai chega nem nós jantamos e pior, nem o governo cai. Irão os «revolucionários», os «insurgentes» e as reses para casa com os egos massajados.

«A formiga no carreiro / Vinha em sentido contrário / (…) / Virou-se pró  formigueiro / Mudem de rumo / Já lá vem outro carreiro»