As
atribulações e as angústias no redil há cento e dez anos -- Março de 1903 --,
se comparadas, têm mais semelhanças do que diferenças com as de hoje.
Hoje
o “epicentro” é em Lisboa; em Março de 1903 o “frémito” foi em Coimbra. Hoje é a
«classe média» que se remexe; em
Março de 1903, no início, remexeram-se as vendedoras ambulantes. Hoje esmagados
por uma carga fiscal, colossal; em Março de 1903 porque lhes caíra em cima o «imposto
do selo». Hoje, para comer, carecemos que outros nos paguem a refeição; em
Março de 1903 porque a monarquia arrastava o país para a mais negra indigência [e ainda a recuperar do “desapossamento” e do consequente
trauma a um Mapa pintado de rosa que só nas cabeças de umas luminárias lusas
poderia ter faiscado como se nada mais existisse além do aprisco]. Hoje
ouvem-se «foras» ao governo, «abaixo» a troika» e «vivas» ao 25A; em Março de
1903 fizeram ouvir «morras» ao governo e
«vivas» à República, à revolução social e ao socialismo.
O
que em Março de 1903 irrompera espontaneamente, consta, no dia seguinte, já estava
em vias de ser capturado por pessoas que tinham pouco ou nada a ver com o
protesto original e que depressa começaram a actuar, tentando desviar o
movimento para os seus próprios fins. Em Março de 2013, pessoas ideologicamente
enquadradas, reeditam o brado espontaneo que irrompeu em
Setembro de 2012.
Hoje
o “hino” dos «indignados» é Grândola, Vila Morena
«Grândola, vila morena / Terra
da fraternidade / O povo é quem mais ordena / Dentro de ti, ó cidade / (…) / Em
cada esquina um amigo / Em cada rosto igualdade»;
em
Março de 1903, o “hino” foi uma cançoneta
sobre a música A Apanhar o Trevo
«Vão pagar o selo / o selo à praça / vão pagar o selo /
que o selo não é de graça: / Vamos todos raparigas / vamos à revolução / vamos
todos fazer greve / ao Pátio da Inquisição»
Nem
mais nem menos tesinhos do que em 1903, mas internacionalizámo-nos. Mal não
está; está péssimo. Cento e dez anos para deixar de andar de burro e passar a
ser montado por burros convenhamos que é pouco, além de um tremendo despercídio
de tempo.
Hoje, as reses, desfilarão segundo as
regras das boas sebentas da agit-prop
e vociferarão liturgicamente sintonizados. E depois? depois nem o pai chega nem nós jantamos e pior, nem o governo cai. Irão os «revolucionários», os «insurgentes» e as reses para casa com os egos massajados.
«A
formiga no carreiro / Vinha em sentido contrário / (…) / Virou-se pró formigueiro / Mudem de rumo / Já lá vem outro
carreiro»
