21 de janeiro de 2013

A brisa dos dias cinza


Nenhum dos meus leitores estranhará que o que menos me importa é se, de facto, Marcelo mentiu ou se é João Soares que mente. Que um dos dois está a mentir, está. E que ambos nos podiam ter dispensado desses enviesamentos de carácter e personalidade, também.
Tudo isto, da conversa [imaginada por Marcelo] à denúncia pública da sua inexistência [por parte de João Soares] compõe, para desgraça e para infelicidade nossa, a aldeola por onde se espraiam as nossas putativas elites da qual estes dois personagens são referências, referenciadas.

Interessa-me a estória como ilustração. Ilustração da efectiva, e corrosiva, pequenez desta gente. 

Uma saloiada pegada; uns provincianos. Digamos que é por esta e imensas outras razões que nunca perdi de ideia que o prejuízo está em cair no redil ou dele não se conseguir livrar.



Podem ser uns mais do que os outros instruídos, reconhecidos, etc…mas reconhecidos, instruídos ou não, padecem de uma maleita congénita ou adquirida que, subtilmente, afecta a sociedade em geral.
Toda essa gente pesa o que pesa e em múltiplos domínios valem o que valem -- e valem --, porque a populaça os lê e ouve com interesse e atenção redobrada. Não é de perto ou longe o meu caso.
Tudo isto espelha uma baixeza sem nome e “preocupa-me” por saber do peso que têm sobre os comuns.
Bem se pode exsudar (1) conhecimento, competência, o que seja… Qualquer dessas qualidades ou virtudes, ao pé da imprescindível “sorte” de «cair em graça», é pouco. Ou nada.

Nada disto tem qualquer novidade. Nenhuma. Em 73, perguntava-se
«Como é que é tão difícel ser decente e não ser cretino? E ser humilde? Porque o grande problema é só este: estar ou não estar na mó de cima. […] Uma carreira faz-se não com o que se é, mas com o que se exibe ser-se. Da superfície para baixo todos os lodos são permitidos. Ó país do tamanho de um papel higiénico! Eu não quero lá estar. Mas estou. E essa diferença é que me trama. Porque toda a diferença é um estigma. […] Ser qualquer coisa é sobretudo parecê-lo. Os factos reais são estes: dois ou três tipos lançam a opinião a haver. E é logo a opinião que há.», solipsisticamente, Virgílio Ferreira.

É por aqui que passa grande parte do meu temor. Tudo isto -- a crise e as dificuldades inerentes --, há-de passar. Tudo passará com excepção da trampa. Pior: muita de toda esta trampa em que década após década nos atolámos, sairá revigorada. E hão-de ter versatilidade bastante para o golpe de rins que os manterá na crista das ondas, ajudados que serão pela imbecilidade colectiva.

(1) a voluntária ou involuntária demonstração de competência é um erro fatal. É, todavia, a cupidez uma “qualidade” mais democrática e, por consequência, muito mais cultivada.

ACTUALIZAÇÃO
entretanto alguém deve ter pedido explicações ao filho do doente e exigiu a reposição da verdade. O menino asim fez. No mesmo sítio onde colocara o "desmentido". Ciumenta e possessiva, a criatura.


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