sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Anatomia de um crime

Sete anos de perorações aqui e outros dois no Causas e Coisas [de que não há vestígios com excepção do que cuidei guardar para mim] sobre os atalhos, apreciando os caminhos e sinalizando os descaminhos com que a colectividade trouxe e pelos quais fez desandar este aprisco até ao olho do furacão pela terceira vez, pouco sobeja senão a recordação da trama de Robert Traver, e a que recorreu Otto Preminger, em Anatomia de um crime.
 
Por certo apenas temos um cadáver e a certeza de que o é porque foi assassinado. Quem o matou?

De isso tudo… do cadáver, do(s) médico(s) legista(s), da(s) arma(s) e do método ou da forma do crime, do(s) indiciado(s) pelo acto, do(s) remédio(s) antiséptico(s), das regras dos homens, etc… em nada me revejo e a rever-me, rever-me-ia apenas, talvez,  e exclusivamente, no advogado que começa pela recusa da defesa do(s) indiciado(s) mas que depois vacila acabando por mudar de opinião.

Não estamos no necrotério face a um cadáver; estamos nos cuidados intensivos perante um moribundo em estado lastimável. Sabemos quem o pôs assim e também sabemos que quem assim o pôs, foram o(s) indiciado(s) com a qualificada ajuda do próprio que apesar de avisado, conscientemente, criou a situação para este desenlace e  ainda de quantos testemunharam e aclamaram, ou silenciaram o mais puderam do que seria o dramático e inevitável desfecho.
O moribundo está que valha-lhe Deus, que lhe valha qualquer outra coisa,… tudo é passível ser-lhe útil com a óbvia excepção do que quer que seja, e dependa, dessa massa antromorfizada.

Foi sempre quase tudo tão pastoso, tão promíscuo, tão difuso, tão meias-tintas, tão medíocre, tão laxista,… e, por favor, não me azucrinem com a ladaínha, antinómica, da arenga pessimista e outras basófias de quilate semelhante. Constatações análogas ou piores ninguém as fez, dos austríacos, que Thomas Bernhard por intermédio do Reger em Antigos Mestres. Não implicou isso que os austríacos tenham mudado no que fosse ou que Bernhard tenha deixado de ser quem foi e que Reger, anónimo, deixasse de ter absoluta razão e sem ter de cuidar em dilucidar se também ele era causa ou apenas consequência. Essa é lenga-lenga para líricos; é conversa para boi dormir.

Chocados, perplexos, admirados, indignados e mais o raio que os parta a todos é o que mais se ouve e lê por aí. Estarão... pois que estejam. Podem gritar tudo: não podem é gritar que tenham sido, ou sejam, inteligentes. Por uma simples razão: se efectivamente o fossem não podiam ser tomados por tão “dóceis”. Há, consabidamente, muitas excepções. Mas essas são do domínio público e são muitíssimo menos do que as que são polvilhadas nas pouco menos do que indigentes redes sociais.

A admiração é mais fácil que o respeito, que a consideração; a admiração é uma característica do estúpido. O estúpido admira;  o inteligente, não. O inteligente respeita, considera, compreende, assim é que é. Para o respeito e a consideração e a compreensão é preciso inteligência e as pessoas não têm inteligência. Sem uma réstia de entendimento e efectivamente desprovidas de qualquer capacidade mental  vão até às pirâmides e às colunas sicilianas ou chegam junto dos templos persas e impregnam-se, e à sua estupidez, de admiração. O estado de admiração é um estado de debilidade mental. A admiração não é característica apenas das pessoas ditas incultas, pelo contrário, é própria também, numa dimensão assustadora, das pessoas que se dizem cultas o que é ainda mais repulsivo. O inculto admira porque é simplesmente demasiado estúpido para não admirar, o culto, porém, é para isso demasiado perverso. A admiração das pessoas ditas incultas é absolutamente natural; a admiração das pessoas ditas cultas é uma perversidade.

De mim, por mim e pelos meus [por sangue e/ou afecto] faço uso com critério, e sem desfalecimento, do provérbio umbundo «Quem feriu, esqueceu; quem foi ferido, não» [o que convenhamos, verdade seja dita, não me dá qualquer proveito material mensurável mas também, por outro lado, nunca me originou pedras biliares, mau hálito ou insónias].Nunca sarei as minhas [feridas] e tenho por certo que jamais as sararei.

1 comentário:

  1. Dou os meus parabéns à perseverança do autor do blogue - não obstante o tom funéreo do texto. ;)
    Abraço.

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