terça-feira, 2 de outubro de 2012

Natureza tirana

Não é a história que se repete. São os homens que se multiplicam, replicam e, pelo que me é dado perceber, são de uma massa irregenerável.

Quem não tem fé pode comportar-se como se acreditasse; a fé virá depois
Singer
 
«Nós, que não vivemos naquela época em que metade da Rússia estava nas mãos do conquistador, os habitantes de Moscovo se refugiavam nas províncias mais longínquas e os levantamentos de milícias se sucediam uns aos outros com vista à defesa da pátria, imaginamos que então os russos, do mais elevado ao mais humilde, não tinham outro pensamento que não fosse o de sacrificar-se para salvar a pátria (…).
Todos os relatos daquela época, sem excepção, falam de sacrifícios, de amor à pátria, de desespero (…). Mas a realidade não era bem essa.
Do passado apenas vemos as grandes linhas históricas enquanto os interesses puramente humanos e pessoais nos passam despercebidos. No entanto, esses interesses puramente humanos e pessoais são muito mais importantes que os interesses colectivos. Os primeiros não deixam ver nem sentir os últimos.
A maior parte dos homens daquela época não prestava a mais pequena atenção à marcha geral dos acontecimentos, inteiramente ocupada com os seus próprios interesses. E esses homens é que gozavam da fama de serem as criaturas mais indispensáveis desse tempo. Aqueles que, pelo contrário, procuravam apreciar os acontecimentos de um ponto de vista elevado, tentando agir com devoção e heroísmo eram tidos como inúteis na sociedade. As suas ideias divergiam em tudo das dos demais e tudo quanto levavam a cabo, na melhor das intenções, aos olhos da maior parte das pessoas não passava de inutilidades, como, por exemplo, os regimentos organizados por (…) e (…), que não faziam outra coisa senão saquear as aldeias e roubar (…). Até mesmo aqueles que, para exibirem os seus dotes de inteligência e as suas louváveis intenções, se davam a fazer comentários à situação eram acusados de duplicidade e de mentira ou de fazerem juízos malévolos sobre as pessoas que assim tornavam responsáveis de actos de que ninguém era culpado. (…)
Tanto em Petersburgo como nas províncias distantes de Moscovo, as senhoras e os cavalheiros, elegantemente fardados de milicianos deploravam a sorte da Rússia e da sua capital, falando em sacrifícios e outras coisas semelhantes (…). Diante das casas a arder ninguém falava em vingar-se dos franceses. Só se pensava no terço do soldo que cada um ia receber na etapa próxima, em Matrechka, na vivandeira e em coisas do mesmo género.(…)»
in Guerra e Paz, L.Tolstoi - Livro IV, 1ª parte, cap.IV

Ao contrário das religiões, o bidet lírico* tem sempre necessidade de doirar a pílula

* expressão, felicíssima, que roubei a Céline

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